Motiva

Há 60 anos, SP acabava com o que seria sua malha de VLT

Bonde circula por SP em 1966

Hoje maior metrópole latino-americana, São Paulo contou por décadas com bondes fazendo parte do seu transporte público. Faz quase 60 anos que os últimos desses veículos circularam pelas ruas da capital paulista.

No dia 27 de março de 1968, o prefeito da época, Faria Lima, acompanhou uma comitiva de políticos, assessores e convidados em um evento simbólico: a última viagem de bondes de São Paulo.

À época, o sistema era visto como algo ultrapassado — lento, cheio de falhas e sem retorno financeiro. Boa parte da população não parecia se importar com seu fim; para muitos, os bondes representavam justamente aquilo que travava o avanço da cidade.

O ponto de partida das comemorações foi a Vila Mariana, nas imediações do Instituto Biológico, região hoje próxima ao Parque do Ibirapuera. Ali ficava o início da última rota ainda ativa, batizada de “Instituto Biológico – Santo Amaro”.

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Doze bondes formaram um cortejo que seguiu até o destino final da linha, com paradas simbólicas no Brooklin e em Piraquara ao longo do caminho. A previsão era encerrar o percurso por volta das 20h.

Segundo o site Estações Ferroviárias, o trajeto tem origem ainda no século 19: entre 1886 e 1914, circulava ali um trem de passageiros movido a vapor, operado pela Companhia de Carris de Ferro de Santo Amaro. Depois de a Light comprar a empresa em 1900, o serviço passou por uma reformulação em 1914 e os trens a vapor deram lugar a bondes elétricos, distribuídos em duas linhas. Décadas depois, em 1947, a operação foi assumida pela CMTC, ligada à Prefeitura de São Paulo.

O trajeto original partia da Praça João Mendes, passando pela Liberdade, Vergueiro, Ana Rosa e Rodrigues Alves, até chegar à Avenida Ibirapuera — um trecho retilíneo de 7 km que corria pelo canteiro central, sem disputar espaço com os carros. Dali, seguia além do Largo 13 de Maio, chegando à região do Socorro. Com o tempo, o segmento entre a João Mendes e o Instituto Biológico foi eliminado, alterando profundamente a configuração da linha.

No bonde que carregava as autoridades naquele dia, dois personagens simbolizavam a transição: de um lado, Francisco Lourenço Ferreira, o motorneiro mais experiente ainda na ativa em São Paulo; do outro, o motorista de trólebus mais jovem da cidade. Os trólebus eram apresentados, na ocasião, como os verdadeiros herdeiros do transporte sobre trilhos que estava sendo desativado — uma viagem repleta de simbolismo para marcar o encerramento do serviço, com o antigo cedendo espaço ao que era tido como moderno.

Essa mensagem — a troca do velho pelo novo — estampava cada um dos doze bondes que percorreram o trajeto final, quase como um lema celebrando o progresso e se despedindo de um passado visto, à época, como atraso.

Só que, ao extinguir esse sistema, São Paulo abriu mão de uma estrutura que poderia hoje funcionar como um eixo de transporte de média capacidade. Enquanto isso, cidades ao redor do mundo reformularam e atualizaram suas redes de bondes, transformando-as em sistemas de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) — modelo que segue sendo prometido por diferentes gestões públicas, inclusive em São Paulo. Ou seja: se a capital paulista tivesse preservado seus bondes, investindo em sua modernização ao longo dos anos, provavelmente teria hoje uma extensa malha sobre trilhos.

Paulistano, profissional de Marketing Digital, técnico em Transportes, Ciclista, apaixonado pelo tema da Mobilidade, é o criador do Portal Via Trolebus.
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