O desafio da climatização nos ônibus urbanos

Divulgação

A ausência de ar-condicionado no transporte público tornou-se uma das principais queixas dos passageiros de grandes metrópoles, especialmente diante das ondas de calor extremo registradas no início de 2026. Em São Paulo, o tema é recorrente nas redes sociais e nos canais de atendimento da SPTrans, onde usuários buscam entender por que, mesmo pagando a tarifa, ainda enfrentam viagens em veículos com janelas abertas e temperaturas internas que ultrapassam os 35°C. O conforto térmico deixou de ser um item de luxo para se tornar uma questão de saúde pública e eficiência operacional.

🚎 Fique por dentro das notícias mais recentes sobre mobilidade urbana:

Canal do Via Trolebus no WhatsApp

Canal do Via Trolebus no Telegram

A precisão dos dados sobre a climatização do transporte público em São Paulo é fundamental para o controle social e a fiscalização do serviço. Os números citados baseiam-se em balanços oficiais e relatórios técnicos da SPTrans (São Paulo Transporte). De acordo com os dados mais recentes de 2025 e o acompanhamento das metas para 2026, a capital paulista atingiu a marca de 91% da sua frota operacional equipada com sistemas de ar-condicionado, restando apenas uma pequena parcela de veículos antigos em processo de substituição.
Já na Grande São Paulo, apenas 10 das 39 cidades da Grande SP têm a maior parte dos ônibus municipais equipados com arcondicionado

O atraso na renovação de frota, acentuado pela crise econômica pós-pandemia e pela alta nos juros para financiamento de novos chassis, travou a substituição de modelos antigos por veículos climatizados. Os contratos preveem que todo ônibus novo inserido no sistema obrigatoriamente possua o equipamento, mas a idade média da frota atual ainda reflete o uso de veículos fabricados antes da vigência dessa norma.

Rafael Catarcione/Prefeitura do Rio

O impacto financeiro é o principal argumento das empresas operadoras para a lentidão na implementação. A manutenção de sistemas de ar-condicionado em ônibus urbanos exige uma revisão periódica rigorosa, dado que o “abre e fecha” constante das portas nas paradas sobrecarrega os compressores. Além disso, estima-se que o uso do equipamento aumente o consumo de combustível (diesel) em até 20%. Em um cenário de preços de combustíveis voláteis, as viações alegam que o valor atual do subsídio pago pela prefeitura muitas vezes não cobre o custo operacional adicional da frota climatizada.

Do ponto de vista legal, o passageiro possui amparo para exigir o funcionamento do sistema em veículos que já o possuem. Segundo o Código de Defesa do Consumidor e os editais de licitação do transporte público municipal, se um ônibus é equipado com ar-condicionado, o serviço deve ser prestado de forma eficiente. Quando o motorista mantém o sistema desligado para economizar combustível ou por defeito não reparado, a empresa pode sofrer sanções administrativas e multas aplicadas pelos órgãos gestores, como a própria SPTrans ou a EMTU em linhas intermunicipais.

A arquitetura dos veículos também influencia na percepção de calor. Muitos ônibus modernos foram projetados com janelas coladas, dependendo exclusivamente da ventilação forçada. Quando o sistema falha nesses modelos, o veículo se torna uma “estufa”, gerando situações de mal-estar e até desmaios entre os usuários em horários de pico. Especialistas em mobilidade da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos) reforçam que a climatização é um fator determinante para atrair a classe média para o transporte público, ajudando a reduzir o número de carros nas ruas.

Ônibus elétrico da Higer que pode ser testado no Rio de Janeiro – Renato Lobo | Via Trolebus

Outro desafio técnico citado pelas fabricantes de carrocerias, como Caio e Marcopolo, é o isolamento térmico das estruturas. Para que o ar-condicionado seja eficaz em cidades tropicais, não basta instalar o aparelho no teto; é necessário que o teto e as laterais possuam isolantes térmicos de alta performance para evitar a entrada de calor por radiação solar. Sem esse investimento na construção do ônibus, o aparelho trabalha no limite, consumindo mais energia e entregando pouco resfriamento, o que eleva ainda mais o custo de manutenção para a empresa.

A transição para os ônibus elétricos aparece como a solução definitiva para esse impasse. Como os motores elétricos são mais eficientes e não geram o calor residual característico dos motores a combustão interna (que ficam localizados na frente ou na traseira, aquecendo o assoalho), a climatização interna torna-se mais fácil e menos custosa. Cidades como São José dos Campos e Curitiba, que já operam frotas elétricas modernas, apresentam índices de satisfação com o conforto térmico superiores à média nacional, justamente pela integração nativa desses sistemas no projeto do veículo.

Por fim, a pressão popular por meio dos conselhos municipais de transporte tem sido a ferramenta mais eficaz para acelerar a climatização. Com a proximidade das eleições municipais e a discussão sobre a renovação dos subsídios, a pauta do ar-condicionado ganha força política. O usuário, munido de aplicativos que indicam se o ônibus esperado possui ou não o recurso, passou a fiscalizar o serviço em tempo real, exigindo que a transparência nos dados de frota se converta em bem-estar real durante o deslocamento diário.

Referências consultadas para a elaboração deste texto:

Editais de Licitação e Contratos de Concessão do Sistema de Transporte Coletivo Municipal de São Paulo (SPTrans).

Manuais Técnicos de Fabricantes de Carrocerias e Sistemas de Refrigeração (Caio Induscar / Thermo King).

Relatórios de Consumo de Combustível e Impacto Ambiental da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP).

Código de Defesa do Consumidor (Artigo 6º e 22º sobre a continuidade e eficiência de serviços públicos).

Estudos de Eficiência Energética em Veículos Elétricos de Transporte Público da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos).

Paulistano, profissional de Marketing Digital, técnico em Transportes, Ciclista, apaixonado pelo tema da Mobilidade, é o criador do Portal Via Trolebus.
Via Trolebus