A história da mobilidade e da logística no Brasil é marcada por uma ruptura drástica ocorrida em meados do século vinte. Até a década de 1930, as ferrovias eram a espinha dorsal do país, responsáveis por escoar a produção de café e conectar o interior aos portos. No entanto, a partir do governo de Getúlio Vargas e, de forma muito mais agressiva, na gestão de Juscelino Kubitschek, o Brasil optou por priorizar as rodovias em detrimento dos trilhos.
O Plano de Metas de Juscelino, com o slogan Cinquenta anos em cinco, tinha como um de seus pilares a atração da indústria automobilística estrangeira. Para que as multinacionais instalassem suas fábricas aqui, o governo precisava garantir mercado para os veículos. A solução foi o investimento maciço na abertura de estradas, como a Belém-Brasília, e o abandono progressivo da manutenção e expansão das linhas férreas.
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Malefícios da Escolha Rodoviária
O Custo Brasil e a Ineficiência Logística: O transporte sobre pneus é significativamente mais caro para longas distâncias. Um único trem pode carregar o equivalente a centenas de caminhões, com um consumo de combustível muito menor por tonelada. Essa escolha encarece o preço final dos produtos para o consumidor e torna as exportações brasileiras menos competitivas.
Vulnerabilidade Estratégica: A dependência quase exclusiva das rodovias deixa o país vulnerável a crises de abastecimento. Como visto em paralisações de caminhoneiros, o Brasil para em poucos dias. Diferente de países desenvolvidos que possuem uma matriz equilibrada com trens, hidrovias e estradas, o Brasil ficou refém de um único modal.
Impacto Ambiental e Segurança: O setor rodoviário é um dos maiores emissores de gases de efeito estufa. Além disso, o Brasil possui um dos maiores índices de acidentes e mortes em estradas do mundo, um problema de saúde pública que poderia ser mitigado se o transporte de passageiros e de carga pesada fosse realizado majoritariamente por trilhos, que são estatisticamente muito mais seguros.
Degradação do Patrimônio Histórico: O abandono das ferrovias resultou na ruína de milhares de quilômetros de trilhos, estações históricas e vilas ferroviárias que antes eram centros de desenvolvimento econômico regional. Muitas cidades do interior entraram em decadência após a desativação dos ramais ferroviários.
O Fenômeno da Desterritorialização
A escolha pelo modal rodoviário não mudou apenas como a carga se movimenta, mas onde as pessoas vivem. As ferrovias, por natureza, criavam cidades compactas ao redor das estações. Com as rodovias, o Brasil experimentou o “espraiamento urbano”. As cidades começaram a se esticar ao longo das estradas, criando vazios urbanos e dificultando a oferta de serviços públicos básicos como saneamento e iluminação.
O Lobby Automobilístico e o Custo de Oportunidade
A vinda das montadoras para o ABC Paulista trouxe empregos e modernização industrial, mas o custo de oportunidade foi o sucateamento de uma tecnologia que já estava instalada. Na década de 1950, o Brasil possuía uma malha ferroviária que, embora precisasse de modernização, conectava estados inteiros. Ao redirecionar os impostos e o orçamento público exclusivamente para pavimentação, o Estado brasileiro deixou de investir na eletrificação de trilhos e na bitola larga, o que teria colocado o país no mesmo nível de eficiência logística da Europa ou da China atual.
O Malefício da Inflação Estrutural
Um dos maiores prejuízos invisíveis dessa troca é a inflação. Como o caminhão é um modal dependente do preço internacional do petróleo e possui um custo de manutenção altíssimo (pneus, peças, pedágios), qualquer variação no preço do diesel é repassada imediatamente para o preço do arroz, do feijão e da carne. Se o Brasil tivesse mantido o transporte de carga pesada em trilhos, a economia seria muito mais resiliente a choques externos no preço dos combustíveis.
O Impacto na Saúde Pública
Além da segurança viária, há o impacto respiratório. A concentração de transporte de carga em rodovias que cortam áreas urbanas eleva a concentração de material particulado no ar. Estudos de saúde pública mostram que moradores de cidades cortadas por grandes rodovias (como as que margeiam as capitais) apresentam maiores índices de doenças cardiovasculares e pulmonares devido à queima constante de diesel, algo que seria drasticamente reduzido com o transporte ferroviário elétrico.
O Cenário Atual: A Tentativa de Retorno
Atualmente, o governo tenta corrigir esse desequilíbrio através do Marco Legal das Ferrovias, incentivando autorizações para que o setor privado construa novos ramais. A meta é elevar a participação do trem na matriz de transportes para 35% até 2035, reduzindo a sobrecarga das rodovias e tentando resgatar um tempo em que o apito do trem era sinônimo de progresso e não de saudosismo.
Referências consultadas
Lessa, Carlos. Quinze Anos de Política Econômica no Brasil. Editora Brasiliense, 1982.
Barat, Josef. Evolução do Transporte no Brasil. IPEA/INPES, 1976.
Dutra, Adélio de Morais. A Questão Ferroviária no Brasil. Editora Expressão e Cultura, 1999.
Gomes, Francisco Magalhães. História da Siderurgia no Brasil. Editora Itatiaia, 1983.
Vasconcellos, Eduardo Alcântara de. Transporte e Meio Ambiente: Conceitos e Contextos. Editora Annablume, 2008.
Confederação Nacional do Transporte (CNT). Boletim Estatístico: Histórico da Matriz de Transportes no Brasil, 2023.







