Motiva

Donos de ônibus tentaram fechar guichês do Metrô

Documentos divulgados pelo portal UOL revelam que famílias controladoras de empresas de ônibus na Região Metropolitana de São Paulo tentaram interferir nas operações das bilheterias do Metrô e da CPTM. O objetivo da manobra, descrita como uma tentativa de intervenção “na canetada”, era extinguir os guichês físicos para direcionar os passageiros ao bilhete TOP, o que aumentaria as margens de lucro da operadora privada.

Seria um duplo papel desempenhado por esses empresários, que atuam nas duas pontas do sistema TOP desde 2020, quando o negócio foi firmado durante a gestão do ex-governador João Doria. De um lado, os donos de empresas de ônibus integram a Associação de Apoio à Bilhetagem dos Transportes Metropolitanos (Abasp), entidade civil escolhida sem licitação para unificar o sistema de tarifas. De outro, eles estão ligados à Autopass, empresa privada contratada pela própria Abasp — também sem concorrência — para gerenciar o cartão TOP.

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O contrato tem vigência de 20 anos, estendendo-se até 2040, e envolve cifras bilionárias. Com base nas 3 milhões de transações diárias estimadas no início do acordo, a projeção mínima do negócio é de R$ 2,3 bilhões ao longo das duas décadas. Desde 2022, o TOP movimenta mais de R$ 2 bilhões anualmente.

O plano para o fechamento das bilheterias

Segundo os anexos contratuais revelados pela reportagem do UOL, o plano inicial previa que a Autopass assumisse as bilheterias das dez estações de maior movimento do Metrô e da CPTM, batizadas de “TOP 10 Bilheterias” (incluindo o terminal da Barra Funda).

Em justificativa interna para dispensar a licitação da Autopass, a diretoria da Abasp argumentava que o modelo digital traria “economia adicional” ao Estado, pois viabilizaria o fechamento total das bilheterias físicas das operadoras estatais através do uso exclusivo do QR Code.

O governo paulista chegou a anunciar o encerramento das bilheterias em 2021, mas o recuo foi imediato após uma onda de críticas dos usuários, falhas técnicas severas no sistema e investigações sobre fraudes nos bilhetes digitais.

Custos e investigação no TCE

Os documentos detalham que o custo previsto para a implementação completa da infraestrutura do cartão TOP foi estimado em R$ 489,3 milhões, sendo R$ 54,2 milhões destinados ao sistema de QR Code e R$ 434,1 milhões para a estrutura de tecnologia, que engloba o data center.

Atualmente, a legalidade do contrato da Autopass é questionada em um processo que tramita no Tribunal de Contas do Estado (TCE) desde 2022. A ação está sob a relatoria do conselheiro Maxwell Borges de Moura Vieira, mas ainda não há um prazo definido para o julgamento definitivo do caso.

O que dizem a Abasp e a Autopass

A Autopass e a Abasp defendem a legalidade e a transparência do modelo de negócios. Em nota enviada ao UOL, as entidades afirmam que o Cartão TOP e o Sistema de Bilhetagem Autônoma (SBA) geraram uma economia superior a R$ 150 milhões aos cofres públicos do Estado de São Paulo.

As empresas argumentam que o modelo permitiu modernizar o sistema de transportes sem a necessidade de investimentos financeiros por parte do governo, transferindo o risco operacional inteiramente para a iniciativa privada e revertendo os ganhos de eficiência em melhorias para o usuário final.

Via Trolebus