Uma proposta nacional para ampliar a infraestrutura de mobilidade urbana, com 187 projetos e cerca de 3 mil quilômetros de novos eixos estruturantes, foi apresentada nesta sexta-feira (4/9), no último dia da 32ª Semana de Tecnologia Metroferroviária, evento promovido pela Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Metrô (AEAMESP), no Nikkey Palace Hotel, na Liberdade, em São Paulo.
O estudo foi desenvolvido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em parceria com o Ministério das Cidades, e estima em R$ 437 bilhões os investimentos necessários para mais do que dobrar as redes brasileiras de transporte de média e alta capacidade.
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A apresentação ocorreu durante o painel “Regulação, Gratuidade e Expansão das Redes de Transportes”, moderado por Alberto Epifani, da Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo (STM). Participaram também Flamínio Fichmann, do Instituto de Engenharia; Francisco Christovam, da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU); e Pedro Protásio, do BNDES.
O presidente da AEAMESP, Ayrton Camargo, agradeceu às instituições envolvidas e classificou o estudo como um marco para o setor, afirmando que a proposta dimensiona os prejuízos causados pelas deficiências da mobilidade urbana e aponta caminhos concretos para enfrentá-los. “Para nós, que militamos no transporte há tanto tempo, é quase um sonho ver uma agência pública apresentar uma visão com essa magnitude. Pela primeira vez, temos uma mensuração das deseconomias causadas pela mobilidade nas cidades acompanhada de uma proposta efetiva de atuação”, afirmou. Ele também colocou a entidade à disposição para apoiar a divulgação e o desenvolvimento das propostas do BNDES, com expectativa de que o banco retorne ao evento no próximo ano já com resultados concretos.
Planejamento de longo prazo
Lançado em julho de 2026, o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana mapeou as necessidades de infraestrutura nas 21 maiores regiões metropolitanas do país, todas com mais de 1 milhão de habitantes. Segundo Pedro Protásio, o diagnóstico revela que os investimentos no setor são historicamente marcados por instabilidade, imprevisibilidade e insuficiência — características que, segundo ele, alimentam um ciclo negativo: a falta de investimento reduz a qualidade do transporte coletivo, afasta passageiros, diminui receitas e compromete ainda mais a capacidade de modernizar os sistemas. “Se os investimentos não acontecem, o setor fica cada vez menos atraente para o usuário. Isso reduz as receitas e prejudica ainda mais a capacidade de investir. É necessária uma atuação coordenada dos municípios, dos estados e da União para romper esse ciclo”, explicou.
O levantamento tem três objetivos centrais: oferecer uma visão de longo prazo sobre as necessidades de mobilidade no país, formar uma carteira permanente de projetos e estabelecer uma estratégia nacional para viabilizar técnica e financeiramente os empreendimentos. Somente na Região Metropolitana de São Paulo foram identificados 41 projetos futuros.
Segundo Protásio, ainda que o valor total do estudo chegue a R$ 437 bilhões, os investimentos podem ser diluídos ao longo dos anos — o pico projetado, de cerca de R$ 20 bilhões anuais, já foi atingido pelo Brasil no período que antecedeu a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. “Esse investimento é possível e compatível com outras políticas públicas. O estudo mostra que 70% das regiões metropolitanas analisadas poderiam concluir os projetos previstos em até 15 anos”, afirmou.
O estudo também constatou que as receitas tarifárias não são suficientes para financiar a expansão das redes e, em muitos casos, nem cobrem integralmente os custos operacionais. A estimativa é de que cerca de 80% dos investimentos precisem vir de recursos públicos — União, estados e municípios —, complementados por fontes alternativas, receitas extratarifárias e investimentos privados.
Apesar da necessidade de aportes públicos, o BNDES avalia que os benefícios econômicos e sociais justificam os investimentos. O cálculo considerou a redução do tempo de deslocamento, a queda no número de vítimas de trânsito, a diminuição das emissões de gases de efeito estufa e a redução de custos operacionais — benefícios que, somados, ultrapassam R$ 400 bilhões. “Nossa conclusão é que vale a pena realizar esses investimentos. Existem diversos benefícios gerados pelos projetos que não entram diretamente nas receitas dos sistemas, mas são apropriados por toda a sociedade”, destacou Protásio.
Segundo o estudo, a implantação completa da carteira de projetos também teria reflexos na cadeia produtiva nacional, exigindo mais de 6 mil ônibus elétricos e 2 mil carros metroferroviários, com potencial de gerar mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos.
Além dos recursos financeiros, o representante do BNDES defendeu avanços na governança do setor, com maior integração operacional e tarifária e planejamento em escala metropolitana. Entre as propostas apresentadas estão a criação de fundos metropolitanos e de um Fundo Nacional de Mobilidade Urbana, que permitiria uma participação mais contínua do governo federal no financiamento do setor.







