O setor de transporte metroferroviário no Brasil acelera seu processo de transição energética, buscando reduzir custos operacionais e a pegada de carbono. No terceiro dia da 32ª Semana de Tecnologia Metroferroviária, promovida pela Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Metrô (AEAMESP), o destaque da manhã foi o avanço dos contratos de autoprodução de energia renovável no setor.
O evento, considerado o mais relevante do segmento na América Latina, reúne até esta sexta-feira (4/9) mais de 1,3 mil participantes — entre autoridades, gestores públicos e privados, executivos e acadêmicos — no Nikkey Palace Hotel, na Liberdade, em São Paulo. Ao longo de 40 horas de programação, mais de 80 palestrantes nacionais e internacionais apresentam debates e estudos de caso.
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A manhã também trouxe discussões sobre concessões, transformação digital, mitigação de riscos e sustentabilidade. Segundo o presidente da AEAMESP, Ayrton Camargo, a diversidade de temas e a qualidade dos painelistas têm tornado esta edição um marco para o debate técnico do setor.
A tendência da autoprodução de energia
De acordo com o painel, a energia elétrica de tração e os combustíveis representam o segundo maior custo dos sistemas sobre trilhos, atrás apenas de despesas com pessoal. Diante da instabilidade nas tarifas de energia tradicional e das metas ambientais (ESG), buscar previsibilidade orçamentária tornou-se prioridade no setor.
Regis Takaoka, assessor executivo de Planejamento Financeiro do Metrô de São Paulo, detalhou como a companhia estruturou um contrato de migração para autoprodução por arrendamento de energia solar, via Mercado Livre de Energia, com o objetivo de reduzir custos e avançar na transição energética.
Segundo o executivo, o Metrô avaliou dois modelos: joint venture, em que o operador entra como sócio da usina e assume riscos operacionais e de engenharia; e arrendamento de planta, em que o operador aluga o ativo de geração sem aporte direto de capital, deixando operação e manutenção sob responsabilidade de um parceiro especializado.
Após uma chamada pública que atraiu 30 empresas e resultou em nove propostas qualificadas, o Metrô optou pelo modelo de arrendamento. Takaoka afirmou que os fatores decisivos para a escolha foram a competitividade de preço, a qualidade da documentação técnica e o estágio avançado de licenciamento do projeto.
A companhia vai utilizar energia solar do complexo Lagoa do Barro, no Piauí, construído pela multinacional chinesa CGN Energy especificamente para esse fim. A planta tem capacidade instalada de 50 MW e energia assegurada de 20 MW, teve obras iniciadas em 2025 e está em fase final de testes. A operação deve começar nos primeiros meses do ano que vem, com 10 MW.
O contrato tem duração de 15 anos e vai atender à tração dos trens das linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 15-Prata. Segundo Takaoka, a expectativa é de economia de R$ 12 milhões por ano, considerando a isenção de encargos do setor elétrico e a redução de riscos ligados a crises hídricas e sazonalidades do mercado regulado.
A diretora jurídica e de compliance da CGN no Brasil, Silvia Rocha, destacou que a estrutura de longo prazo do contrato traz escala econômica e distribui os riscos de forma equilibrada entre as partes, tornando a parceria sustentável financeiramente.
Um dos temas mais discutidos no evento foi a intermitência das fontes renováveis, como a energia solar, que só é gerada durante o dia. Para lidar com esse desafio, o setor de tecnologia trabalha no desenvolvimento de sistemas de armazenamento por baterias de grande porte (BESS).
Silvia Rocha afirmou que a CGN também explora, no Brasil, alternativas tecnológicas para reduzir a dependência de baterias de íon-lítio, mais caras. Segundo ela, a empresa desenvolve projetos-piloto com tecnologia CSP (Energia Solar Concentrada), que armazena o calor do sol para acionar turbinas a qualquer momento — solução já consolidada na China como alternativa à geração térmica, garantindo fornecimento contínuo de energia.
Além do Metrô de SP, a CPTM, o Grupo CCR e o Grupo Comporte também constam entre as operadoras brasileiras com contratos de autoprodução de energia firmados no país.
O evento também abordou gargalos logísticos e questões regulatórias. Representantes da MRS, DP World Brasil e Braso Logística apresentaram cases sobre integração multimodal e movimentação de contêineres no Brasil.
Na sequência, palestrantes de empresas como Rumo e FIPS (Ferrovia Interna do Porto de Santos) discutiram os impactos do modelo de autorizações ferroviárias, tratando de como os novos trechos privados e as outorgas afetam o ambiente de investimentos e o papel das concessionárias tradicionais na expansão da malha ferroviária nacional.




