Mais de um século após a implantação da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), o histórico corredor ferroviário passa a ser revisitado sob uma nova perspectiva. Até 2028, o trajeto de 905 quilômetros que liga Minas Gerais ao Espírito Santo será palco do Projeto Estação, iniciativa que busca resgatar, preservar e dar novos significados às memórias e histórias construídas ao longo da ferrovia.
A proposta utiliza a fotografia e o audiovisual como instrumentos de preservação da memória ferroviária, reunindo relatos, imagens e experiências ligadas às cerca de 30 estações da EFVM. O projeto é realizado pela Horus Planejamento e Gestão, com apoio da Vale e da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), e tem como foco a valorização da cultura local e das comunidades que vivem no entorno dos trilhos.
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Em menos de um ano de atividades, o Projeto Estação mobilizou 80 jovens mineiros, que passaram a redescobrir paisagens, patrimônios arquitetônicos e personagens do cotidiano ligados à ferrovia. Cidades como Belo Horizonte, Barão de Cocais, Rio Piracicaba, João Monlevade, Itabira, Nova Era e Antônio Dias integraram a primeira etapa da ação, totalizando 172 quilômetros percorridos, além de visitas a outros 44 pontos ao longo do território mineiro.
Desde a construção dos trilhos, iniciada em 1904, a EFVM sempre foi objeto de estudos e registros históricos. Agora, esse resgate ganha uma abordagem contemporânea, a partir do olhar de jovens entre 16 e 25 anos, que produziram 240 fotografias utilizando câmeras de smartphones. As imagens deram origem a sete instalações artísticas espalhadas por escolas, praças, palcos e estações ferroviárias, transformando espaços urbanos em galerias a céu aberto.
Entre os locais que receberam as intervenções estão a Estação Ferroviária no centro de Belo Horizonte, escolas estaduais e municipais, praças públicas e muros em cidades como Barão de Cocais. As obras reconfiguram a paisagem urbana ao mesmo tempo em que reforçam a identidade cultural das comunidades atravessadas pela ferrovia.
De acordo com o coordenador geral e idealizador do projeto, Preto Filho, o objetivo para os próximos três anos é ampliar o alcance da iniciativa e democratizar o acesso à fotografia no eixo Sudeste. A proposta é dar visibilidade a patrimônios culturais e memórias coletivas de comunidades ferroviárias, criando uma rede de troca de saberes e afetos entre territórios conectados pelos trilhos.
Para a ANTT, o projeto contribui para uma visão mais ampla do papel da ferrovia. Segundo o diretor-geral da agência, Guilherme Theo Sampaio, a preservação da memória ferroviária integra o compromisso com um transporte mais humano e conectado às realidades locais, mostrando que a ferrovia vai além da infraestrutura e se consolida como um território vivo de histórias e identidades.
Ao contrário do imaginário popular, frequentemente associado a personagens fictícios da cultura pop, o Projeto Estação prioriza histórias reais. O trem que liga Belo Horizonte ao Porto de Tubarão, em Vitória, transporta cerca de três mil passageiros por dia e já levou mais de oito milhões de pessoas na última década. Entre elas, ferroviários e moradores que tiveram suas trajetórias registradas pelo projeto, como ex-maquinistas, funcionários de estação e trabalhadores aposentados.
O foco na diversidade também se destaca. Dados do projeto indicam que, entre as inscrições realizadas em 2025, 69% eram de mulheres e 67% de pessoas autodeclaradas negras. Ao todo, os participantes passaram por mais de 192 horas de atividades formativas, resultando em produções fotográficas e audiovisuais exibidas em espaços públicos e culturais.
Em Belo Horizonte, a exposição integrou o Circuito da Liberdade e reuniu obras fotográficas e produções audiovisuais no Espaço Cultural da Escola de Design da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). O encerramento do ciclo contou ainda com o lançamento de uma galeria virtual, ampliando o acesso às produções e consolidando o Projeto Estação como uma iniciativa de valorização da memória ferroviária e da cultura local.






