Foto: Caio de Benedetto
SPTrans

Demanda de linhas de ônibus explode na Cidade Universitária

Situação se agrava em linhas já saturadas e começa a atingir outras alternativas de ligação da cidade com o Campus.

Por Eduardo Ganança, 3º ano da graduação em Arquitetura e Urbanismo, FAUUSP

Foto: Caio de Benedetto
Foto: Caio de Benedetto

Foi uma primeira semana de aulas bastante conturbada para os alunos e funcionários do Campus Oeste da Universidade de São Paulo, no que tange ao transporte coletivo. As já “tradicionais” filas no Terminal Butantã, durante o pico da manhã, para acesso às duas linhas de ônibus que ligam a Cidade Universitária à estação Butantã da Linha 4 –Amarela (8012-10 e 8022-10) aumentaram várias vezes seu comprimento, chegando uma delas a contornar o prédio da estação até o acesso desta à Rua Pirajussara e a outra a avançar vários metros ao longo da Avenida Vital Brasil.

Como alternativa, outros estudantes seguiam para o ponto de parada localizado do outro lado da avenida, ao qual atendem mais quatro linhas de ônibus que entram no Campus. Tais linhas, principalmente as que seguem até o Hospital Universitário, apresentavam lotação acima do razoável a partir dali.

O cenário de extrema saturação foi atribuído pelos usuários à transferência das atividades acadêmicas de muitos alunos do Campus Leste, interditado desde o ano passado por conta de problemas de contaminação do solo, para a Cidade Universitária. Também é bastante notório que no início do ano a demanda por transporte coletivo no Campus é naturalmente maior. Isso ocorre porque ao longo do ano, boa parte dos ingressantes gradualmente opta por outras alternativas de transporte. Infelizmente, boa parte opta pelo automóvel.

Mudanças

Ainda em 2011, a linha 724A-10 (ACLIMAÇÃO/CID.UNIVERSITÁRIA), que já operava com intervalos bastante longos, foi suprimida.

Em novembro de 2012, sob pretexto de uma reorganização de linhas na Zona Norte, várias das linhas do Campus foram alteradas. Com destaque para 107T-10 (TUCURUVI/CID.UNIVERSITÁRIA) (vide errata) e 177P-10 (METRÔ SANTANA/BUTANTÃ-USP) que deixaram de atender à Universidade, prejudicando usuários não somente da Zona Norte como os que se utilizavam destas linhas durante seu trajeto, com destaque para os estudantes residentes no Município de Guarulhos, que é tradicionalmente ligado a São Paulo através da Estação Armênia do Metrô, também atendida pela linha 107T-10.

Tais mudanças chegaram a ser atribuídas à influência do então reitor João Grandino Rodas, em nota, pelo DCE Livre da USP, a partir de relatos de cobradores das linhas. Contudo, não houve evidência direta de seu envolvimento.

Já em 2013, as linhas 7725-10 (METRÔ VILA MADALENA/RIO PEQUENO) e 7702-10 (TERM.LAPA/USP) foram unificadas, passando a compor a atual 7725-10 (TERM.LAPA/RIO PEQUENO), que deixou de atender à região da Vila Madalena.

Intermodalidade ineficiente

Todas essas linhas funcionam como rota de fuga dos estudantes em relação às longas filas já conhecidas do Terminal Butantã no pico da manhã, que, somados ao tráfego pesado da Rua Camargo, tornam o tempo de viagem bastante semelhante àquele observado utilizando-se os caminhos “antigos”, de ônibus a partir de estações das linhas 1, 2 e 3 do Metrô.

Ponto de ônibus na Av. Prof. Luciano Gualberto
Ponto de ônibus na Av. Prof. Luciano Gualberto

O sistema tronco-alimentador, que a SPTrans diz tentar adotar tem como principal desvantagem para o usuário o maior número de transferências. Em tese, o menor tempo de viagem e o maior conforto proporcionados pela racionalização do sistema compensariam essa desvantagem e tornariam o caminho troncalizado o mais atrativo.

No entanto, quando o número de transferências aumenta (e se tratando de transferências sofríveis como o acesso à Linha 4 – Amarela em Luz e Paulista-Consolação), o tempo de viagem permanece o mesmo e o conforto piora, não há
dúvidas: o usuário procurará por outras alternativas.

Trânsito

A Av. da Universidade, na região da Portaria 1, não raro tem filas de mais de 1km no sentido de saída, que depois se estendem pela Rua Alvarenga. No pico da manhã a causa são motoristas que utilizam a via como alternativa à Marginal Pinheiros; no pico da tarde, o motivo é a saída dos estudantes e funcionários que utilizam automóvel. Com isso, o engarrafamento ocorre nos dois horários.

O trajeto de 1,2km entre a Portaria 1 e o Terminal Butantã, por vezes, dura mais de 30 minutos. Isso atrapalha a “volta” de todos os ônibus que atendem ao campus, que têm de se misturar ao pesado tráfego de automóveis. Ainda que os usuários no pico da manhã não tenham a Rua Alvarenga como parte de seu trajeto, o tráfego pesado nessa via é um gargalo para o retorno dos ônibus ao terminal e impede a boa fluidez das linhas de ônibus.

Na Rua Camargo, após a adição da faixa exclusiva, esse problema foi mitigado. Porém não ajuda muito tratar de só um lado do binário, uma vez que o sistema é cíclico.

A Avenida da Universidade, a exemplo das outras avenidas do campus, conta com largo canteiro central e faixas para estacionamento em ambos os lados de ambas as pistas, totalizando quatro faixas destinadas a esse fim. A Rua Alvarenga, por sua vez, possui quatro faixas de rolamento e tráfego pesado a qualquer hora do dia.

Gratuidade

Pois ao passo que a atratividade dessas linhas despenca, os “incentivos” ao seu uso são evidentes. O corte de linhas é um deles. O outro, é o subsídio.

A Universidade fornece aos estudantes e funcionários um cartão bastante semelhante ao Bilhete Único, que garante ao portador a gratuidade de uso dessas duas linhas. A tarifa destes usuários é paga pela própria Universidade.

Esse sistema garante que, apesar da péssima atratividade, as linhas continuem cheias. Não somente cheias, mas as mais cheias da cidade em passageiros transportados por ônibus, somando-se a isso o também singular trajeto curto que elas percorrem.

Mais dificuldades

O desconforto que atua para a péssima avaliação do serviço das linhas circulares se dá não somente por conta da lotação. Ele também provém do conflito de elementos projetados em diferentes contextos da história do transporte coletivo urbano em São Paulo. É um ponto não muito perceptível para o usuário e bastante interessante de ser explorado.

Os ônibus que atendem a essas linhas têm layout que abriga portas em ambos os lados do carro, com as portas à direita nos extremos e as portas à esquerda no meio. O que, teoricamente, proporciona uma distribuição bastante lógica de passageiros durante a viagem quando há pontos de paradas alternados entre esquerda e direita da via.

Contudo, a localização dos pontos de parada dentro do Campus ainda segue a premissa superada de que os ônibus devem ter apenas portas do lado direito – portanto todos os pontos se encontram à direita da via. Com isso, não adianta haver ônibus novos com projeto atualíssimo , a eficiência na distribuição dos passageiros e no desembarque acaba sendo a mesma do ônibus mais antigos, com uma porta de embarque junto à frente do carro e a de desembarque no fundo, ambas à direita.

A situação se torna esdrúxula quando se observa o trajeto percorrido, composto em sua maior parte por largas vias com generosos canteiros centrais, que abrigariam tranquilamente os pontos de parada à esquerda da via. Vale ressaltar que todas as linhas que atendem ao campus (à exceção de uma linha seletiva da EMTU/Urubupungá, dos fretados e do “circular interno”) possuem ônibus com portas em ambos os lados em toda a sua frota.

Praticamente toda a extensão das avenidas do campus têm o lado esquerdo da via, junto ao canteiro central, funcionando como faixa de estacionamento, inclusive com vagas demarcadas na sinalização horizontal – para suprir um suposto “défcit de vagas” nos estacionamentos das unidades, atendendo talvez àqueles que, frente à situação da
ligação do campus com o sistema de transporte público, opta pelo individual.

ERRATA: A Linha 701U-10 (METRO SANTANA/BUTANTA-USP) também atende à Estação Armênia do Metrô e ao Campus.

Sobre o autor do post

Eduardo Ganança

Graduando em Arquitetura e Urbanismo na FAUUSP e pesquisador de Tecnologia em Cartografia Histórica no Laboratório de Topografia e Geodésia da Escola Politécnica da USP.

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