Campanha do Estado para pedestres é inadequada, diz Associação

Foto: Robson Fernandjes

Em Agosto de 2015, o Governo do Estado de São Paulo lançou o “Movimento Paulista pela Segurança do Trânsito”, reunindo nove secretarias da gestão do Governador Geraldo Alckmin, com o intuito de reduzir o número de vitimas de acidentes de trânsito.

O movimento conta com o apoio de mais de 20 parceiros, entre eles a Ambev, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo) e a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Entre as ações, teve a elaborações de folders espalhados em locais públicos, e disponíveis pela internet, onde quatro grupos são abordados: Motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. A campanha consiste ainda em advertências para cada grupo.

Mas, a campanha não agradou a todos, sobretudo atuantes da mobilidade ativa, principalmente grupo de pedestres. Segundo Ana Carolina Nunes, Integrante do Cidadeapé – Associação pela Mobilidade a Pé em São Paulo, e Representante da Mobilidade a Pé no CMTT – Conselho Municipal de Transporte e Trânsito da cidade de São Paulo, a ação por parte do Governo Estadual é inadequada.

“Eles não conhecem a pirâmide invertida da política nacional de mobilidade urbana, que coloca o pedestre como preferência acima de tudo. Eles não conhecem os conceitos de acalmamento de tráfego. Não faz nenhum sentido querer domesticar o pedestre enquanto o motorista continua tendo o comportamento totalmente errado e sem ser coagido”, afirma Ana Carolina.

Na avaliação dela, o material desenvolvido não leva em consideração a responsabilidade do motorista sobre o trânsito, levando em conta que são papeis diferentes no viário, de um lado um equipamento que pesa toneladas, e de outro, o corpo humano. “A cartilha da dica para motoristas não se envolverem em colisões com outros carros, mas não como ele agir para não atropelar”, afirma.

 

“Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres” – CTB

 

Para Ana Carolina, faltou ainda dialogar com sociedade civil. “Se você quer fazer uma campanha para pedestres e ciclistas, o mínimo é escutar o que eles tem a dizer”, diz Ana.

marechal1

Outra questão levantada pela especialista é o desenho das vias, e suas respectivas faixas de pedestres, nem sempre na rota mais lógica dos deslocamentos.

“A estrutura da cidade e o mal comportamento dos motoristas fazem com que a gente fique numa linha muito complicada. Se agente sai de casa e decide andar só cumprindo a lei, a gente é atropelado, ou a gente não atravessa a rua nunca, por que os motoristas não respeitam a preferência, e estrutura da cidade é pensada para que a gente (pedestre) de sempre uma volta maior, que a gente espere mais tempo. Então se a gente segue a regra, corre o risco do mesmo jeito. Se a gente resolve burlar as regras que não foram feitas para a gente, não só corremos o risco, como somos culpabilizados”, diz a representante da Cidadeapé.


Autor: Renato Lobo

Ler todos os posts

Paulistano, Técnico em Transportes, Ciclista, apaixonado pelo tema da Mobilidade, é o criador do Portal Via Trolebus.

15 Comentários deste post

  1. Se é pra falar de pedestres porque não falam da nova medida do futuro prefeito João Doria, que vai soterrar a fiação elétrica e tirar os postes da calçada melhorando a mobilidade dos pedestres??medida essa que o Haddad não aprovou e ngm criticou. Vai entender… isso sim é obra de verdade!

    R / Responder
    • Sério esse comentário?

      Raul / (em resposta a R) Responder
    • R, isso não é verdade. A lei do enterramento foi aprovada na gestāo do Serra mas o Kassab não pôs em prática. Uma das poucas coisas certas que o Caggad tentou fazer, foi justamente o cumprimento dessa lei e, no entanto, a associação das elétricas entrou na justiça e suspendeu a execução de forma liminar.

      Hubner / (em resposta a R) Responder
  2. A impressão que tive ao ler a matéria é que o grupo representado pela entrevistada anseia maior protagonismo em relação a questão da mobilidade. O pedestre precisa sim ser orientado, aliás, ele é o que apresenta muitas vezes menor nível de instrução em relação às leis de transito, embora a responsabilidade dos acidentes e sinistros seja, como defini o CTB, dos motorizados para os não motorizados. Os motoristas tem instrumentos para coibição de condutas indevidas, como multas, radares e a própria fiscalização, enquanto pedestres não sofre nenhum tipo de assédio dos órgãos gestores a não ser pelas campanhas informativas. Alguém já contabilizou a quantidade de multas para pedestres que atravessaram fora da faixa?

    Embora a parcela de responsabilidade deste público seja mínima, ou em muitos casos nula, julgo importante sim o pedestre também ser responsabilizado pelo trânsito, pois ele também compõem a mobilidade urbana quando faz seus deslocamentos a pé. O que estou propondo não é culpar uns mais do que os outros, mas sim dividir um pouco as responsabilidades, tal qual o Estado aparenta fazer na campanha de conscientização citada, fugindo da polarização carro versus coletivo proposta na discussão.

    Cicero Junior / Responder
    • Senti a mesma coisa. Essa ONG quer aparecer.

      Se ela é tão relevante, por quê é que não foi convidada?

      Hubner / (em resposta a Cicero Junior) Responder
    • Cícero,
      A crítica foi feita pela falta de diálogo com representantes da mobilidade ativa, baseada na inversão de dispostos legais, tanto é que muitos motoristas acreditam que o pedestre só pode atravessar na faixa, o que é uma interpletação totalmente equivocada. Estas sim deveriam ser amplamente divulgadas e combatidas. Quanto a punição de pedestres, os próprios motoristas irresponsáveis vem assumindo o papel de juiz e carrasco, basta observar as estatísticas de mortes no trânsito, superior a diversos conflitos armados pelo mundo. Sim, o pedestre também deve ser educado a ocupar seu espaço no viário, mas em primeiro lugar vem aqueles que oferecem mais risco a vida.

      Marcelo Pádua / (em resposta a Cicero Junior) Responder
      • Quem garante que o governo não conversou com outros grupos? Por que necessariamente o diálogo tem que passar pelo grupo dela, ou algum destes que tem apelo midiático por conta da pesquisa do tema? Existem grupos de discussão dentro dos próprios órgãos gestores, universidades entre outros meios. Para uma medida de conscientização chegar até o usuário final, passa por uma série de especialistas até então ser submetida à vontade política ou mera “canetada”.

        Discordo do seu ponto. Se pedestre é um grupo numeroso e que sofre uma série de riscos, sendo o mais susceptível aos danos, tem sim que ser conscientizado e orientado quanto ao seu papel social, independente de o motorista do carro estar certo ou errado (o que na minha opinião deve ser passível de punição muito mais brandas do que as atuais – perdi pessoas próximas por conta de incidentes assim).

        O que quis dizer e repito é que existe uma série de medidas coercitivas para o automóvel, funcionem ou não, enquanto que para o pedestre vale, senão, campanhas informativas e olhe lá, sendo que muitas vezes trata-se do publico mais desprovido de informação.

        Todas as discussões, ou boa parte delas, vão de encontro a tirar, ou diminuir o volume de carros nas ruas, prevalecer o transporte público, incentivar a ciclo mobilidade etc, todavia se o pedestre não for consciente e fizer sua parte, pouco vale. O cidadão pode atravessar em espaços além da faixa, entretanto é sua obrigação verificar a diminuição instantânea do fluxo, olhando para ambos os lados, e promover uma travessia segura. Todos fazem isto? Eu tenho minhas dúvidas, e neste sentido acredito ser positivo também responsabilizar este público como ator no trânsito das cidades.

        Cicero Junior / (em resposta a Marcelo Pádua) Responder
    • Se fosse assim, de que pedestre SÓ PODE ATRAVESSAR NA FAIXA, eu só poderia andar em círculos pelo meu quarteirão… porque não há nenhuma faixa…
      Não dá pra pensar assim, sinceramente… Eu não vejo oportunismo nenhum pela representante da ONG… enquanto não entrar na cabeça que a base dos deslocamentos em uma cidade é o transporte pedonal, não dá pra ter uma cidade minimamente saudável.
      Não tem como colocar responsabilidades iguais em uma pessoa a pé e outra que controla um veículo motorizado de quase uma tonelada… Enquanto isso, mortes no trânsito são disseminadas e banalizadas.
      O pedestre deve ter SIM um papel de protagonista em qualquer questão de mobilidade se quisermos cidades melhores… veja exemplos no mundo inteiro… Não é difícil.

      Felipe Silva / (em resposta a Cicero Junior) Responder
  3. Como disse, tive uma pessoa muito próxima atropelada por irresponsáveis ao volante. Estava na calçada e perdeu a vida. Embora a punição deste homicídio, na minha opinião doloso por conta do estado de embriaguês e excesso de velocidade, não tenha sido exemplar, existem medidas, pelo menos escritas e registradas por leis, decretos e o próprio código que regem os carros, seja de uma forma positiva ou não. Talvez o esforço seja para que a fiscalização ainda maior, ou então melhores leis para resguardar a vida no trânsito, todavia, o pedestre não pode ficar isento na elaboração destes textos. Não que deva ser proibido de andar pelos calçamentos, mas justamente precisa ter noção dos riscos os quais está submetido e também aqueles que pode fornecer numa conduta mal adequada.
    Nossos problemas sociais não passam apenas pelos nossos governantes, leis, instituições, mas também pelo indivíduo.

    Afirmar que a campanha é inadequada e que o poder público não conhece a pirâmide da mobilidade é de um equívoco sem tamanho. Quem trabalha com isso é concursado, graduado no segundo e terceiro grau e que muitas vezes tem de pesquisar e elaborar relatórios e ainda sim submeter seu trabalho para compreensão do gestor, muitas vezes político.
    Não estou afirmando que tudo está bem, a campanha está certa e plena. Com certeza deve possuir alguns equívocos ou pontos a serem melhorados e consequentemente melhor explorados. Porém, é um esforço do governo para este público e deveria ser reconhecido como tal, mesmo porque consumiu dinheiro dos contribuintes.

    Cicero Junior / Responder
    • Oi Cícero, talvez não tenha ficado claro na matéria. Mas eu estive reunida com as pessoas responsáveis pela campanha – que não são do governo do Estado, e sim de uma agência contratada, e elas afirmaram não conhecer a Política Nacional de Mobilidade Urbana. Infelizmente só tive a oportunidade de fazer esse contato DEPOIS que a campanha já estava no ar.

      Ana Carolina Nunes / (em resposta a Cicero Junior) Responder
  4. O brasileiro ainda é muito mal educado, no volante, na moto, na bicicleta ou a pé. A maioria que é motorista, também é piloto, bicicletista ou pedestre.e quem é mau motorista, também é mau em outras modalidades de mobilidade.Fica observando bicicletistas em parques e confirmem a quantidade de irregularidades cometidas.

    Felix / Responder
  5. Acho que todas as partes comentem erros, porém os motoristas são mais graves, devido a estarem em um veículo letal.

    Rodrigo Santos / Responder
  6. A questão é que a campanha trata disso, inclusive, debruça sobre cada tipo de modal fazendo recomendações. O que soa estranho é justamente um grupo específico clamar que a mesma é inadequada por não ter diretivas sobre atropelamentos quando a mesma campanha fala, na parte que é destinada aos condutores veiculares, sobre o cumprimento das leis.

    Cicero Junior / Responder
  7. Apenas e tão somente o motorista deve preservar a vida, o resto faz o que entende. Multa já para todos os pedestre que atravessam fora da faixa a eles destinada e também aos Gestores pela incapacidade de realizar a manutenção e a conservação da sinalização. Retirem todas as lombadas da cidade sem a devida pintura e sinalização, coloquem lombadas eletrônicas e pronto.
    /esse “negócio” de enterrar a fiação vai deixar muitas empreiteiras pé de chinelo milionárias. Acorde e não compre essas ideias, trabalhe na manutenção dessas galerias é uma bagunça com tudo misturado, além do mais a cidade de São Paulo não paga as pseudo empresas que prestam serviços na saúde, acordem. NÃO TEM DINHEIRO PARA NADA.

    roberto / Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*